“Minha espada não tem partido” afirma general do exército a Bolsonaro; Entenda a relação do presidente com as forças armadas

Para o General do Exército, as forças estão "alinhadas com o pensamento dele [Bolsonaro], mas não submissas. É importante frisar isso.”

Por: Larissa Placca | 12 abril - 18:54

Na última sexta-feira (9), durante cerimônia de transmissão do comando da Marinha do Brasil, o chefe do Estado-Maior do Exército, general Antônio Amaro, reforçou ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido): “Aceito o convite, a minha espada não tem partido.”

No final de março, (29/3), o então ministro da defesa, Fernando Azevedo e Silva, informou por meio de uma nota oficial seu desligamento. O pedido foi feito logo após o desligamento do Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e precedeu a mini reforma ministerial de Bolsonaro, alterando no total 6 pastas.

Militares do Exército

Militares do Exército; Foto: Agência Brasil/Divulgação

Entenda o relacionamento de Bolsonaro com as forças armadas

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é militar de formação, ingressando aos 15 anos na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) e se formando na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Desde a sua pré-campanha para a presidência em 2018, Bolsonaro demonstrou proximidade com a ala militar. 

Quando assumiu, Bolsonaro indicou e nomeou generais militares para ministérios e diretoria de estatais. Recentemente, com o agravamento da Pandemia no Brasil e posicionamentos contrários entre o presidente e os governadores e prefeitos, colocaram em situação o relacionamento entre as forças armadas e Bolsonaro.

O presidente entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo o julgamento da ação recorrida pelo governo para suspender os efeitos dos decretos da Bahia, do Distrito Federal e do Rio Grande do Sul que estabelecem medidas restritivas no combate à pandemia da covid-19, como o fechamento de atividades não essenciais e o toque de recolher.

Isto porque, no início do mês de março, conforme informado pela Metropolitana, o STF prorrogou a lei que autoriza governadores e prefeitos a determinarem medidas próprias contra a Covid-19.

No dia 19, o presidente disse, aos seus apoiadores no Palácio da Alvorada, que o governo federal poderá tomar “medidas duras” se o STF não acatar a ação contra as políticas de restrição dos governos e municípios.

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No entanto, a medida não foi suspensa e Bolsonaro voltou a criticar governadores e prefeitos que declararam lockdown e toque de recolher, afirmando que esse tipo de decisão cabe apenas ao presidente, ao declarar estado de sítio.

O que une essa história, segundo informações de jornalistas no DF, é que o general Azevedo e Silva teria sido demitido por Bolsonaro após desacordos entre o ministro e o presidente. Ele teria se recusado a demitir o comandante do Exército, general Edson Pujol. 

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Pujol defende uma relação de independência entre as Forças Armadas e o governo, propondo não se posicionar politicamente com relação às restrições dos governadores, por exemplo.

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Assim, o Ministro da Defesa foi trocado e o novo general, ao assumir, realizou a troca nos comandantes das 3 forças armadas.

Porém, após trocas das Forças Armadas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fala com apoiadores nesta terça-feira (30) sobre decretar estado de sítio. “Eu não posso decretar. Quem decreta é o Parlamento.”, afirmou Bolsonaro no Palácio da Alvorada.

Relação histórica das Forças Armadas com o Governo

Historicamente, a última vez que houve a troca do Ministro da Defesa e dos três comandantes das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica), com exceção de período de troca de governo, foi em 1977 na abertura da Ditadura Militar pelo então presidente Geisel. 

Após essa repercussão no mês de Março, a Metropolitana conversou com representantes das 3 forças armadas. O Coronel do Exército e da Marinha pediram para não serem identificados e, da Aeronáutica, tentamos contato por meio da Assessoria de Imprensa e não tivemos retorno até a publicação desta reportagem. 

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Para o Coronel do Exército, o que aconteceu no Governo Geisel em 77 era um outro contexto e que “proporcionalmente naquela época foi muito mais grave do que ocorreu agora.” 

“No momento, eu creio que o presidente fez a substituição por afinidade funcional, ele quer ter o controle absoluto de todas as situações e de todo o governo.”, continua.

Para o Coronel da Marinha a comparação do período atual com o ocorrido em 1977 é considerada “um exagero puro”.

O historiador Antônio Bottino, que também já serviu a Marinha do Rio de Janeiro, concorda que o contexto é muito diferente daquela época, justificando que com Geisel os agentes envolvidos e a dinâmica econômica envolvida, eram diferentes. Na época, o Brasil além de uma transição de governo militar para democrático, passava por uma abertura econômica após forte investimento na indústria nacional.

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“Não consigo ver como uma crise tão aguda pelo contexto e as circunstâncias [daquela época] serem verdadeiramente diferentes.”.

O que as Forças Armadas pensam do Governo Bolsonaro?

Após essa repercussão no mês de Março, os representantes das forças armadas entrevistados pela Metropolitana expressaram, em unanimidade, que não houve atrito entre os militares e o presidente e ressaltaram que, principalmente, os militares exercem um trabalho pelo Brasil, não pelo governo em si.

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Ao serem perguntados sobre um ‘distanciamento’ na relação entre Bolsonaro e as forças armadas, devido às divergências de ideias e as trocas (conforme explicado acima), os generais negam qualquer atrito.

Para o General da Marinha, “Não acredito. O presidente é o Comandante das FFAA. Nós continuaremos a obedecer ao presidente, quem quer ele seja.  Da mesma forma que obedecemos a Lula, Dilma e Temer.”

Já para o General do Exército, as forças estão “alinhadas com o pensamento dele [Bolsonaro], mas não submissas. É importante frisar isso.”

No entanto, para o historiador, “com relação ao distanciamento a gente pode dizer que sim, a demissão, não só do ministro da Defesa, mas a troca voluntária dos 3 comandantes, até em aliança, mostrar estar junto com o ministro, mostra esse não alinhamento com o governo Bolsonaro.”.

Bottino ainda opina que “eu acho que verdadeiramente as forças armadas não congregam do mesmo pensamento do Bolsonaro, ele sim fica enchendo de militares a esfera política porém o exército, na sua essência, deixa muito claro que é uma instituição de estado e não de governo.

Sobre as mudanças nos ministérios, Bolsonaro afirmou que só ele e Braga Netto sabem “o motivo disso tudo.”

Neste ponto, os generais concordam. O General do Exército afirmou que “na própria Constituição Artigo 142 Inciso 5º: ‘o militar em serviço ativo não pode ser filiado a partidos políticos” e ele reforça que as forças armadas são órgãos do estado, “não podemos partidarizar, estaríamos indo contra a constituição.”

Para ele, o apoio sempre foi visto como um apoio ao país e a garantia da lei, e não político.

A Metropolitana conversou com um militar nível tático da Aeronaútica e ele afirmou “Na minha opinião de nível tático, a mudança do alto comando, dos comandantes, não altera em nada na minha missão do dia-a-dia, ainda continuamos operando normalmente, a parte política não interfere nisso, pode até ter uma mudança a longo prazo, mas hoje não.”

Ele ainda completa: “continuamos cumprindo nossas missões, missões que existem independente do governo, salvando vidas, transportando tropa e lançando cargas”. Por questões internas, a fonte também pediu para não ser identificada.

Militares no Governo Bolsonaro

Quando questionados sobre a presença de militares no Governo atual, que já se demonstrou maior que em outros períodos do Brasil, o General do Exército justifica o presidente, afirmando que “é normal que você traga para o seu trabalho colegas que você conhece, é natural que o militar por conhecer pessoas [outros militares] que possam desempenhar [o cargo], convide também.”.

Para ele, os militares têm muita credibilidade na sociedade “porque tem uma ideia de correção, obediência às leis. A atuação de militares no governo é vista com bons olhos em geral, claro que tem uma parcela que olha mal pela época da ditadura.”

Ele ainda comentou a situação com relação à nomeação do Comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira, apesar de que, segundo fontes, o presidente gostaria de ter indicado outro general para o cargo, porém, respeitou o critério de antiguidade. 

A preferência do presidente era pelo general Marco Antônio Freire Gomes, atualmente no Comando Militar do Nordeste, mas ele tinha seis nomes à sua frente, segundo o critério.

“Critério da antiguidade, é como uma cláusula pétrea, não tem como o mais moderno [como é chamado o militar que se graduou mais recentemente] comandar o mais antigo.”.

Para o General da Marinha, as nomeações de militares no Governo ocorrem por competência “Se tivéssemos líderes civis à altura das responsabilidades de condução do país, não seria necessária a presença de militares no governo.”.

Bottino comenta a questão “ele tenta se cercar de militares, acredito eu pela forma como ele foi acostumado a vivenciar, porém é muito complicado você chegar e ter que colocar pessoas que não estão preparadas ou, pelo menos, tão bem preparadas como tivesse uma pessoa da área para trabalhar nessas circunstâncias…”

O historiador comenta ainda a questão da transição do Ministério da Saúde, já alterado 4 vezes pelo presidente. “Por exemplo, o ministério da saúde, ele disse que não precisava de um médico precisava de um gestor, mas um gestor que não entende?” , criticou o professor.

E ele justifica, “então o Bolsonaro tenta, através dessas nomeações, manter os cargos sobre a sua influência, sobre a ideia política que ele acredita que seja correto, e não necessariamente em torno daquilo que o Brasil verdadeiramente precisa.” 

“É muito lamentável”, concluiu Bottino. Os Generais concluem a entrevista afirmando que os soldados militares “estão vigilantes para garantir os princípios democráticos” e que sempre foram em prol de um “interesse coletivo: o estado para o bem do povo.”.

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