Entre dívidas e ameaça de uma nova quarentena, o presidente da Argentina afirma que não terá como pagar o FMI no próximo ano

No país, “agora, o que se está tentando fazer é sobreviver", analisa sociólogo

Por: Larissa Placca | 29 março - 12:03

Entre dívida histórica, vacinação e ameaça de uma nova quarentena, o presidente da Argentina, Alberto Fernandez, afirmou neste domingo (28), que o país não tem possibilidade nenhuma de pagar o FMI (Fundo Monetário Internacional) no próximo ano.

A afirmação foi feita em entrevista à Radio del Plata, junto com o jornalista Horacio Verbistky, que estava envolvido no escândalo de vacinação clandestina pelo ex-Ministro da Saúde, Ginés González García, que veio a renunciar ao cargo.

Presidente da Argentina, Alberto Fernandez

Presidente da Argentina, Alberto Fernandez; Foto: Agência Brasil/Divulgação

Dívida Histórica

Desde a queda do regime de ditadura militar, em 1980, a Argentina acumulou dívidas externas, inclusive com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Após diversos planos econômicos fracassados, hiperinflação, desemprego e baixa produtividade no país, em 2001 a Argentina declarou moratória, que durou até o ano de 2016, quando o país conseguiu negociar e pagar parte dessa dívida.

Moratória é quando o Estado declara a suspensão do pagamento dos serviços da sua dívida externa, por não haver mais recursos para pagar. Atualmente no país, mais de 40% da população vive abaixo da linha de pobreza.

O ex-presidente, Mauricio Macri, em seu mandato 2015/2019, negociou um empréstimo de US$ 55 bilhões com o FMI. O atual governo de Fernandez se limitou a US $44 bilhões.

Além da dívida com o FMI, ainda existe outra dívida de US$ 2 bilhões, com o Clube de Paris, que deixa a situação ainda mais complicada.

No total, o país vizinho tem US$ 324 bilhões de dívida pública, cerca de 90% do próprio PIB. A dívida pública da crise de 2001 representava cerca de 60% do PIB. A Argentina terá que pagar grande parte da dívida entre 2022 e 2023.

“Agora, o que se está tentando fazer é sobreviver”, analisa o sociólogo entrevistado pela Metropolitana, Vinicius Manduca. “Um governo que teve dois meses fora da pandemia, é caracterizado pela gestão da pandemia. A antiga crise da Argentina deixada por Macri ainda não foi vista.”.

Vacinação

“Não, [o Governo de Fernandez] não se vê melhor… Porque quando estávamos vendo a gestão como um pouco melhor, quando se tinha liberado da quarentena e tinha liberado as viagens dentro do país, tivemos as questões com a vacina e a verdade é que as pessoas estão bem desconfortáveis.” Afirmou em entrevista, Jorge Alan Austin, estudante da Universidad Nacional de Córdoba.

Furando fila da vacinação

O jornalista Horacio Verbitsky afirmou ter sido vacinado graças à amizade com o então ministro da Saúde, Ginés González García. Além dele, foi divulgada uma lista com 70 vacinados pelo ministro. A vacinação acontecia dentro do seu próprio gabinete. Fernandez pediu imediatamente a renúncia do ministro.

Falta de vacinas na Argentina

Apesar dos contratos, a Argentina, como diversos países, inclusive o Brasil, sofre com o atraso na entrega das vacinas.

O país tem acordos para receber 62 milhões de doses que, segundo o ex-ministro, seriam o suficiente para imunizar toda a população argentina maior de 18 anos. Até hoje, a Argentina recebeu 5 milhões de doses da vacina da Rússia, Sputnik V, e a chinesa Sinopharm.

“A produção das vacinas foi mais complexa do que se estava. Houve um erro de cálculo dos que desenvolveram a vacina que não lhes permitiu produzir tão maciçamente quanto acreditavam”, escreveu o presidente em seu Twitter.

A vacinação no país está no grupo de idosos de 69 anos. “Era para estarmos todos vacinados e na verdade é que estamos atrasados e sem vacina”, disse Jorge.

A campanha de vacinação teve início em 29 de dezembro de 2020. Do total de vacinados com pelo menos uma dose são 2.908.932, cerca de 6,50% da população e o número de pessoas totalmente vacinadas (com as duas doses) é cerca de 1.74% da população. A população total do país é de 44 milhões.

Nesta semana, a Argentina passou o Brasil no total relativo de população vacinada. Leia a matéria completa. Nossos números são de 6,27% da população com ao menos uma dose.

Ameaça de nova quarentena

O presidente Alberto Fernández afirmou nesta noite de domingo (26), que terá reuniões para propor as próximas medidas restritivas frente à alta dos casos de coronavírus, mas descartou um “isolamento social restrito”. “Acredito que estamos no começo da segunda onda de contágios do coronavírus.”, declarou à C5N.

“O que acontece é que estão especulando, falando que vão subir os casos porque já atingimos o pico de contágio, a sociedade relaxou [nas medidas preventivas] e provavelmente vai chegar uma nova onda de contágio com a nova cepa. Então, se está especulando uma espécie de quarentena de novo. Esperamos que não…” afirmou Jorge.

As medidas restritivas de quarentena terminaram em dezembro do ano passado, o país teve a maior quarentena do mundo. Hoje na Argentina, bares, baladas, colégios, restaurantes e comércio funcionam sem restrição de horário ou distanciamento social. O uso da máscara ainda é solicitado.

Vinicius Manduca afirma que a situação na Argentina com o coronavírus ainda é muito séria. “A gente tem uma questão no Brasil que estamos nos acostumando com dados pavorosos, por exemplo, 120% de lotação de UTI, de 3.000 mortos por dia… Quando a gente olha pra Argentina, a gente não consegue ver, mas lá, na realidade, está bem sério. Até o final de janeiro eles tiveram 50% das UTIs ocupadas, a Argentina hoje é um dos 10 países que mais morrem pessoas pela doença.”

Manduca afirma que quanto mais se relaxam as medidas preventivas, mais o vírus aumenta e analisa que “boa parte dos argentinos respeitaria [uma nova quarentena] mas não seria um lockdown tão efetivo.”

“E se agora quiserem fazer quarentena de novo… vai continuar piorando [a imagem do Governo]… Mas tudo bem… É algo que acontece faz um tempo aqui.” Concluiu o estudante.

O sociólogo, ao contrário, é positivo ao analisar essa questão argentina. “Acredito que até junho, a vacinação esteja acelerada o suficiente para não ter que se decretar um novo lockdown.”.

Porém, ele afirma que “existe sim uma possibilidade de nova quarentena lá, pelo posicionamento que vimos do governo.” Mas, falando em adesão da população, ele conclui que “depois que as pessoas saem para a rua, é difícil voltar atrás.”.

Popularidade do presidente argentino

Em maio de 2020, Alberto Fernández registrou uma alta aprovação entre argentinos, mesmo em meio à pandemia, considerada muito boa ou boa por mais de 79% da população, segundo pesquisa CELAG.

Ao final do ano passado, em dezembro, Fernández caiu para 50% de aprovação e 47% de rejeição. Porém, “após um ano tão difícil, isso é favorável”, analisou Eduardo Fidanza, diretor da Poliarquía Consultores.

De acordo com Vinicius Manduca, o que impacta na popularidade é a economia. “Podemos ter umas questões morais, que importam mais para um ou outro, mas a grande questão é a gestão da economia durante a pandemia”.

O sociólogo ainda lembra questões sociais promovidas pelo presidente argentino “por exemplo, no final do ano a argentina teve a criminalização do aborto. Esse foi um projeto do próprio Alberto Fernandez que passou pelo congresso e foi sancionado, então essas questões influenciam na popularidade, mas elas estão em setores [da sociedade].”. Dificilmente, segundo Manduca, essas questões resumiram a queda ou alta da popularidade de um Governo.

O sociólogo conclui que o fenômeno da queda da popularidade em meio a pandemia é comum e esperado. “Se você analisar no mundo inteiro os líderes tiveram queda na popularidade, principalmente no início do isolamento as reações foram negativas e, dependendo, no final se alterou para cima ou para baixo.”

Ele conclui, “a Merkel da Alemanha e o Macron da França, a mesma coisa.”, comentando que a popularidade baixou no início da pandemia e aumentou após estabilização e retomada. “O Trump, por exemplo, caiu a ponto de não ser reeleito.”.

A previsão do futuro da Argentina ainda é muito incerta, o governo está tentando balancear as dívidas de épocas passadas e os problemas atuais da pandemia.

Para Manduca, “a gente pode esperar que algumas questões voltem à tona, por exemplo as leis trabalhistas e vamos ter uma reação constante do mercado frente a isso.” Mas o sociólogo afirma que, devido ao seu posicionamento conciliador, Fernandez estará sempre dialogando com o mercado nessas questões.

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