Entenda a relação EUA x Brasil x China com o 5G

Tecnologia de internet mais rápida poderá ser foco de leilões em território brasileiro este ano

Por: Leonardo Fernandes | 29 março - 09:17

Com a posse de Joe Biden na presidência dos Estados Unidos, é de se pensar como o Brasil seguirá daqui para frente em sua relação diplomática com o país, e como isso pode afetar (ou não) seus acordos com a China. Enquanto isso, o Brasil segue na mira do governo chinês para a implementação de tecnologias e infraestrutura, como o 5G em território nacional — sistema de conexão que já foi acusado pelos EUA no governo Trump de ser usado para espionagem, sem provas concretas disto. 

Em contraponto, no dia 18 de março, o Governo Federal divulgou uma nota sobre uma carta enviada pelo presidente norte-americano a Jair Bolsonaro, datada de fevereiro, em que enfatizava a missão de ambos os líderes em tornar seus países mais “seguros, saudáveis e prósperos”. É possível manter as pazes e a segurança com os EUA, e ainda assim assegurar um sistema de conexão super avançado vindo da China?

Bolsonaro e Xi Jinping ficam lado a lado, na frente das bandeiras do Brasil e da China

O presidente Jair Bolsonaro acompanhado por Xi Jinping, presidente da República Popular da China, em encontro diplomático de 2019. Foto: Isac Nóbrega/PR

Confira abaixo como está a relação China x Estados Unidos, e como o Brasil se encaixa neste mapa de inovação e tecnologia que o 5G engloba.

O que é o 5G? Como o Brasil se encaixa nisso?

O 5G é a quinta geração do sistema de conexões de internet, que apresenta frequências mais altas e atende uma troca mais acelerada de informações e dados entre sistemas de aparelhos. A empresa mais expressiva no oferecimento desta tecnologia ao Brasil é a chinesa Huawei, que já é presente em território nacional na produção de antenas para empresas de telefonia móvel.

A questão está justamente na própria Huawei. Há países ao redor do globo que já adotaram restrições à companhia, como Japão, França e os Estados Unidos mesmo, durante o governo Trump. Para que o Brasil não aceite a tecnologia chinesa, os EUA estariam dispostos a oferecer um financiamento ao país para que uma tecnologia de “rede limpa” seja usada — termo utilizado pelo embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, em entrevista para a CNN em dezembro de 2020. 

Enquanto isso, leilões de faixas e frequências telefônicas brasileiras devem ocorrer este ano, direcionadas às empresas que queiram implementar o 5G no Brasil, mesmo que no fim do ano passado o país tenha cedido espaço às tais redes limpas. 

Em entrevista ao site Teletime, o ministro conselheiro da embaixada chinesa no Brasil, Qu Yuhui, diz que há um avanço nas discussões do 5G no país com ou sem Estados Unidos. A implementação da tecnologia serviria para “aprofundar mais um novo horizonte entre os países”, e que a China quer manter o “respeito mútuo” com os brasileiros.

É preciso lembrar que os chineses são um dos maiores parceiros comerciais do Brasil. Segundo levantamento divulgado pelo site InfoMoney em fevereiro, a participação da China nas exportações brasileiras cresceram em 7% no período de um ano, e alcançou 32,3% da produção nacional exportada. Com isso, é notável que a implementação do 5G estreitaria ainda mais os laços mantidos entre os países.

Há diferença entre Joe Biden e Donald Trump em relação à China no governo dos EUA?

No dia 19 de março, as delegações da China e dos Estados Unidos se reuniram no estado do Alasca (EUA) para o primeiro encontro de conversações diplomáticas entre os países. Como foi reportado pela imprensa internacional, o diálogo entre o secretário de Estado americano, Antony Blinken, e o conselheiro de Estado da China, Yang Jiechi, foi carregado por pautas que questionaram as ações de cada nação na solução de problemas internos e externos. 

Um dos assuntos comentados por Blinken foi a pressão econômica da China em economias aliadas aos Estados Unidos. A economia chinesa, de nível global, teve uma recuperação de investimento no começo de 2021 após a pandemia de Covid-19 no país; e nesse sentido, os chineses pretendem continuar com o oferecimento e estabelecimento de tecnologias às nações com quem mantém certa relação, como o Irã, em reunião na semana passada, e o próprio Brasil com o 5G.

A discussão que marcou o encontro inicial entre as nações, sob o novo governo Biden nos EUA, carrega consequências das sanções econômicas estabelecidas por Donald Trump em 2018. Agora, o presidente atual aparenta agir com maior multilateralismo ao dialogar com outras nações, e isso inclui a China. 

Contudo, Biden também planeja reduzir a dependência econômica dos norte-americanos com os chineses, já que no mês de fevereiro o presidente assinou um decreto de estímulo à própria economia nacional na produção de matérias-primas usadas em microchips, material sanitário, na indústria automobilística e mais.

Por isso, é evidente que o presidente atual quer movimentar o poderio econômico local, a partir da ideia do “Made in America” (Feito na América), demarcar certo desprendimento da necessidade de importação chinesa, e atender os países parceiros quando necessário com produtos próprios. E antes da tomada de qualquer decisão sobre manter ou não as tarifas econômicas impostas à China por Trump, Biden não quer se precipitar e pretende consultar especialistas antes de qualquer manobra. 

Para o Brasil, o equilíbrio pode ser mais favorável

Diante deste cenário, o Brasil poderia continuar com o balanceamento das relações ao optar por uma posição neutra. Não há confirmações concretas sobre a suposta espionagem que o governo chinês foi acusado de fazer, mas a implementação do 5G seria favorável para a rede telemóvel brasileira como um todo. 

E com as tentativas de Biden em amenizar as tensões com a China, apesar dos decretos para manter a economia estadunidense soberana regionalmente, o governo brasileiro poderá ter mais espaço para receber a infraestrutura chinesa sem sofrer um recuo na relação com os Estados Unidos. 

Fora o 5G, ainda há a questão dos insumos de vacinas da Coronavac, vindos da China, e as conexões para que os EUA também ajudem o Brasil no combate à pandemia. O país deve manter boas relações com ambos daqui para frente, para que o recebimento do suporte não seja prejudicado. Atualmente, há pressão no Congresso para que Ernesto Araújo, atual ministro das Relações Exteriores, saia do cargo e que seja substituído nas discussões diplomáticas com as duas nações parceiras.

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