Especialistas demonstram preocupação com a retomada das aulas presenciais

Nas últimas semanas, os profissionais da educação têm protestado contra o retorno às salas de aula e vêm sendo alvo de críticas do governo federal e do Senado; “Não é possível garantir à volta as aulas de forma segura", diz especialista

Por: Marina Ponchio Gomes Ferreira | 23 abril - 18:41

Declarações polêmicas têm sido feitas pelo governo federal sobre a retomada das aulas presenciais na pandemia de covid-19. No dia 10 de abril o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou que o ministro da Educação, Milton Ribeiro, irá autorizar a volta às aulas presenciais em todo o país. 

“Ele [o ministro Milton Ribeiro] vai dar um parecer favorável à volta às aulas no Brasil. Até para atender um grupo de professores em São Paulo. O problema existe, tem que tomar os cuidados, mas não pode mais ficar em casa. Até quando?”, disse o presidente. 

LEIA TAMBÉM

MPF denuncia ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub por improbidade administrativa

Governadora e deputados criticam abertura das escolas

Foto: Reprodução/Pixabay

Em São Paulo, com o início da fase de transição do Plano SP, já está autorizada a volta às aulas presenciais, seguindo os protocolos de segurança.  

O professor Rodrigo Ratier, doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), acredita que agora não é o momento certo para uma retomada “acho que a volta às aulas é possível sim sem a vacina, mas é importante pensar em ambientes ventilados que tenham uma circulação de ar adequada, espaços amplos ao ar livre em que seja possível praticar o distanciamento social, dessa forma é possível voltar. O que acontece é que não dá para garantir que as escolas do Brasil, tenham essa condição”. 

Segundo o secretário estadual de Educação Rossieli Soares, as escolas – privadas e públicas – em São Paulo registraram, no início deste ano 741 casos confirmados de covid-19. Só na rede estadual da Educação foram 456 casos de alunos infectados “É importante lembrar, que as escolas não estão isoladas na sociedade, para chegar nas instituições as pessoas usam transportes públicos, se expõem de várias formas que são focos de contaminação da covid-19. [Para retomar] é necessário uma série de condições que a gente não tem, a pandemia precisa estar primeiro sob controle”, ressaltou o professor.

Na quarta-feira (21) a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei que proíbe a suspensão das aulas presenciais durante a pandemia da covid-19. O texto torna as aulas presenciais “atividades essenciais”.

Pelo projeto, a educação básica e o ensino superior são considerados fundamentais mesmo durante o enfrentamento da pandemia, o que torna proibido que os estados e municípios façam a suspensão do formato presencial. O documento segue ainda para avaliação do Senado. 

Ratier demonstra preocupação com a comparação das atividades escolares com a prática de outras situações: “Não é possível garantir a volta às aulas segura nem na rede particular, muito menos na rede municipal e estadual. Para retomar as aulas, é necessário vacina, auxílio emergencial e alguma forma de lockdown, são as coisas efetivas para diminuir a pandemia, fora disso é ir ‘tapando com a peneira’, ‘ah mas tem um monte de gente na rua’, deveriam estar na rua? As escolas têm que pagar por isso? Vão expor mais pessoas porque tem gente que está na rua e não deveria estar?”

Outros profissionais da área de educação também mostram receio, com a flexibilização. No dia 12, profissionais da Educação protestaram em frente à sede da Prefeitura de São Paulo, contra a volta às aulas presenciais nos colégios da rede municipal da capital. 

De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias no Município de São Paulo (Sindesp), os servidores estão em greve há 62 dias e, relatam os riscos de se retomar aulas presenciais na cidade em meio ao agravamento da pandemia de coronavírus. 

Para o Sindesp, trabalhadores da Educação como professores, supervisores, gestores, profissionais terceirizados, entre outros, correm risco de contaminação pelo novo coronavírus. Os professores não podem ser convocados, mas tem várias escolas convocando. Existem direções escolares e pais brigando com os professores. As comunidades escolares estão rachadas.”, conta o especialista.  

Governo federal e Senado criticam a paralisação das aulas

No dia 18, o presidente criticou em suas redes sociais os prefeitos e governadores que fecharam as instituições escolares durante a pandemia. A medida foi imposta para limitar a circulação de pessoas e controlar a contaminação da doença nos estados.

Bolsonaro disse que o país é “um dos com o maior tempo” de fechamento de instituições de ensino no mundo. “No momento em que o Brasil descola do resto do mundo, toda comparação internacional para de fazer sentido. Não dá para dialogar com o governo federal, eles nem contam como forma de administração, em nenhuma momento se trabalhou com protocolos sérios para acionar a reabertura, não teve linha de crédito para favorecer a educação remota emergencial, trabalhou-se na chave do negacionismo ‘tem que abrir porque tem que abrir’”, opinou o Ratier. 

O corpo docente das escolas também foi alvo de críticas pelo deputado federal, Ricardo Barros (Progressistas), líder do governo na Câmara dos Deputados, que citou os profissionais da educação ao afirmar que os docentes “não querem trabalhar”. 

Em entrevista à CNN Brasil, Barros afirmou: “é absurdo a forma como nós estamos permitindo que os professores causem tantos danos às nossas crianças na continuidade da sua formação. O professor não quer se modernizar, não quer se atualizar. Já passou no concurso, está esperando se aposentar, não quer aprender mais nada”, afirmou o parlamentar. 

“Não tem professor que não queira voltar às aulas, porque a gente sente muita falta, eu defendo o ensino remoto emergencial, mas todo mundo prefere o presencial é muito mais rico, se aprendeu muito mais, existe uma troca bem maior. Por que não volta? Porque não tem condição, é uma doença muito mortal”, conclui Ratier.

LEIA MAIS

Câmara dos Deputados deve debater educação domiciliar na primeira infância

Ministro da educação anuncia exoneração do presidente da Capes

Confira os últimos acontecimentos no Estado de São Paulo:

Deixe seu comentário

BOMBOU!

Recomendadas para você