Entenda os impactos na educação infantil com o ensino a distância

Mães de alunos da educação infantil contam um pouco sobre a experiência do ensino em casa com seus filhos

Por: Sophia Bernardes | 25 abril - 18:55

O surgimento da pandemia fez com que autoridades governamentais, em março de 2020, mediante recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) decretasse estado de emergência e calamidade pública, através de Portaria do Ministério da Saúde, devido aos crescentes casos de pessoas infectadas pela Covid-19 em todo território nacional.

Diante disso, uma das medidas iniciais foi a suspensão das aulas nas redes de ensino pública e privada. Com as aulas suspensas sem previsão de retorno, as instituições de ensino recorreram a um novo método, o sistema de ensino remoto e a distância. Essa transformação ocorreu em um mês e gerou muitos questionamentos sobre o nome sistema, como seria implementado, qual seria a reação dos alunos, o rendimento seria o mesmo, e as crianças em processo de alfabetização ou nas series iniciais, e seus pais.

Foto: Agência Brasil

As questões levantas são pertinentes visto que o ensino infantil é delicado e complexo, requer um olhar e uma metodologia específica, é a fase de maior importância na formação do ser humano.

A partir da autorização do MEC do ensino a distância, as escolas estão utilizando esse novo modo de ensinar através da gravação de vídeo aulas e envio de atividades via plataforma de acordo com cada instituição de ensino e com base nos recursos financeiros disponíveis, cabe destacar que nas escolas públicas não funcionou bem assim, as aulas foram interrompidas por completo e as instituições distribuíram apostilas, sem orientação dos professores.

A professora [sem identificação] do Ensino Fundamental da instituição pública, conta que não houve reorganização na estrutura da escola, como redução de funcionários, “Os números de professores e de salas não diminuíram, visto que a esfera pública conta com servidores efetivados em regime de concurso, logo, não há alteração no quadro de funcionários”. Contudo destaca “que alguns educandos atendidos na modalidade EJA [Educação Jovem e Adulto] evadiram durante a pandemia e possivelmente retornarão apenas quando a quarentena chegar ao fim”.

Surgiram casos de falta de alimento na quarentena, impedindo a condição humana básica para qualquer outra atividade. A lentidão de recebimento dos recursos oferecidos pelo governo federal também é fator que causa desvio de foco dos estudantes, que precisam buscar outros afazeres para a manutenção de sua família.

A professora explica “A esfera pública entregou materiais impressos e “Cartão-merenda” aos educandos, contudo, muitos continuaram enfrentando situações de vulnerabilidade social em seu seio familiar”.

Como afetou o aprendizado da criança?

O primeiro momento do ensino a fase de adaptação e aceitação da nova realidade foi difícil e desgastante para os pais e alunos, “Para nós foi muito estressante e difícil, pois como pais queríamos que o nosso filho que recém tinha completado 6 anos fosse perfeito, soubesse coisas que ainda não tinha tido contato, exigimos dele mais do que poderia entregar. E isso gerou muita briga, desgaste e irritação dos dois lados”, conta Juliana Turazza, mãe de dois filhos, 7 anos e 1 ano.

Em termos de aprendizado das crianças através do ensino a distância foi diretamente afetado, “O aprendizado na pandemia foi completamente prejudicado, tem dias que eu posso dizer até que ele é inexistente que a criança está ligada na aula, mas é como se não tivesse, e tem dias que ela aprende uma coisa ou outra”, pontua Cláudia Gomes, mãe de dois filhos, 11 anos e 8 anos.

Levando em conta que a tecnologia faz parte da vida das crianças, “No início ainda teve uma euforia, coisa nova, diferente como eles são muito tecnológicos e gostam disso, apesar que são tecnológicos para a diversão [jogos, vídeos, buscar coisa na internet, ver filmes] porque de fato eles não interagiam através da tecnologia com os colegas ou professores, as interações para as crianças acontecem através dos jogos, da diversão”, conta Cláudia.

Como as professoras se reinventaram?

Em meio a situação, o professor deixa de ser apenas um transmissor de conhecimento e ministrar aulas e passa a ser um aprendiz junto a seus alunos, tornando urgente a necessidade de reconstrução do ensino pedagógico e uma nova abordagem ao aluno, “Enquanto enfrentávamos esse processo de adaptação e aceitação dessa nova rotina a escola por sua vez também estava tentando se adaptar”, de acordo com a Juliana Turazza.

Pensando nisso, a professora Amanda Ribeiro de Educação Infantil procurou formas de atrair os alunos, “Eu tentei adaptar minhas aulas com algumas plataformas diferentes de jogos e quiz, muitos vídeos, plataforma de livro digital e lousa digital”, completa que “Isso é interessante usar no presencial também, estimular os estudantes a terem uma boa relação com a tecnologia e usar ela ao nosso favor”. No entanto, Amanda pontua que “não é possível dizer que funcione de verdade, a estrutura de aula 100% presencial é muito mais efetiva, é fundamental a troca”.

A educação infantil é o momento em que as crianças começam a interagir e descobrir o mundo a sua volta, fora do seu ambiente familiar, fazendo amizades e aprendendo a conviver e respeitar com diferentes culturas. Juliana destaca como o principal impacto, “Eu sinto que a falta da liberdade e do direito de aprender com o próximo, essa riqueza foi perdida em um momento crucial da vida dessas crianças, onde eles aprendem na sociedade escolar a viver em sociedade”, e apresenta preocupações em relação ao futuro das crianças, “Tenho muitos receios de como essa geração irá lidar com a vida adulta”.

A situação de professores do ensino superior durante a pandemia do coronavírus

Profissionais da Educação protestam contra a volta às aulas em São Paulo

Como afetou dentro de casa?

A escola tem como papel fundamental durante a passagem da educação infantil de despertas as crianças para percepção do mundo dinâmico em que estão inseridas, dessa maneira os pais tiveram que interferir nessa ponte entre aluno e escola. “No nosso caso eu voltei para a escola literalmente, é impossível uma criança de 6/7 anos ter a responsabilidade de entrar nas aulas e fazer as aulas sem supervisão”.

Contudo, muitos pais, principalmente neste momento de pandemia, não têm disponibilidade para auxiliar os filhos o tempo todo, precisam trabalhar para sustentar a família, Juliana recorda, “Graças a Deus eu tive essa disponibilidade, porém os pais que trabalham para sustentar a casa, não conseguiram se dedicar e viram seus filhos sendo profundamente prejudicados, eu não consigo imaginar a dor que essas famílias estão passando”.

Cláudia conta que precisou se dedicar por completo e o quão angustiando é, “No caso da mais nova de 8 anos, além de ser menor precisa de um acompanhamento por conta de todas as dificuldades, então o envolvimento é completo, preciso sentar ao lado dela, e assistir as aulas quase que inteira, acabo perdendo a manhã toda, porque senão ela não acompanha, fica frustrada, nós pais ficamos angustiados de ver a criança não aprendendo direito”. E pontua que que é difícil o processo da alfabetização sem um professor auxiliando, “Para mais nova como ela está no processo de alfabetização é muito difícil porque eu não sou professora e muito menos alfabetizadora, o mais velho eu consigo ter mais referências”.

A professora (sem identificação) descreveu que o aprendizado “não ocorre apenas por meio de competências cognitivas, mas também de socio-emocionais, ou seja, interações entre todos os membros da comunidade escolar, logo, o período remoto possui especificidades em comparação ao modelo presencial”.

A Lei Geral de Proteção de Dados, uma nova lei que entrou em vigor em setembro de 2020 que consiste em proteger a privacidade dos titulares dos dados por meio de regras de proteção de dados. Para preservar o tratamento de dados pessoais dos alunos as escolas estão suspendendo as gravações das aulas, dificultando para os pais e alunos, visto que esse recurso facilitava o aprendizado quando o aluno tinha alguma dúvida por exemplo. Claudia comenta, “No caso da mais nova, tem dias que ela está cansada e não adianta insistir, eu prefiro desligar deixar ela fazer algo que ela gosta para ela se distrair um pouco e depois sento com ela e assistimos a aula gravada, agora não tem mais, achei isso muito complicado, porque eu cheguei a fazer várias aulas com ela”.

Nesta segunda-feira no estado de São Paulo, as aulas presenciais das escolas retomaram depois da área da educação ser considerada serviço essencial pela gestão atual, além disso mais de 50 mil profissionais da educação já tomaram a primeira dose da vacina contra a Covid-19. As aulas na rede estadual vão voltar para o modelo presencial a partir da semana que vem. As redes municipal e privada devem seguir regras das prefeituras.

LEIA MAIS NOTÍCIAS

Ministro da educação anuncia exoneração do presidente da Capes

Senado inclui investigação de estados e municípios na CPI

Confira os últimos acontecimentos no Estado de São Paulo:

Deixe seu comentário

BOMBOU!

Recomendadas para você