A situação de professores do ensino superior durante a pandemia do coronavírus

A professora e doutora Cândida Almeida conta um pouco sobre sua experiência como profissional no ensino superior

Por: Maria de Toledo Leite | 12 abril - 21:08

A pandemia do coronavírus, agora há mais de um ano na vida de todos, tem causado mudanças inéditas no dia a dia de cada um. Desde começar a trabalhar em “home office” até ter aulas online e assistir à palestras via “live”, as pessoas tiveram que se adaptar das mais diversas maneiras para acompanharem o “novo normal” imposto pela situação.

Até agora, no Brasil, foram mais de 354 mil vidas perdidas para a doença e 13 milhões de casos confirmados dela. A campanha de vacinação está acontecendo desde janeiro no país, mas ela ainda tem um ritmo um tanto lento. Segundo os últimos dados divulgados, apenas 3,33% da população recebeu as duas doses de imunizante contra a Covid-19.

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Foto: Reprodução/Pixabay

No entanto, escolas estão sendo liberadas e algumas serão abertas, podendo ministrar aulas presenciais a partir desta segunda-feira (12), o que dá uma certa esperança para esse setor voltar a funcionar antes do que outros. Mas o ensino superior ainda não prevê uma volta à “normalidade” anterior à pandemia.

Como a pandemia afetou os professores do ensino superior?

Falamos muito sobre a importância do ensino para os alunos, mas muitas vezes deixamos o ponto de vista dos profissionais da educação de lado. Para entendermos mais sobre essa perspectiva, entrevistamos a professora da Faculdade Cásper Líbero e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, Cândida Almeida.

Segundo a doutora, é muito importante destacarmos as diferenças entre a forma de ensino que acontece hoje e o “ead”. Isso porque o ead considera a tutoria, onde o professor dá as ferramentas para o aluno, ele aprende sozinho e depois tira suas dúvidas.  “Ensino a distância pressupõe uma série de dinâmicas e metodologias muito diferentes do que os cultivados hoje pelas plataformas virtuais, o que tá acontecendo não é um ead, é um ensino remoto.” 

Com tantas mudanças e aflições na vida das maiorias das pessoas, os índices de doenças mentais e risco de suicídio aumentaram bastante em 2020. A profissional contou um pouco sobre o impacto da pandemia em sua vida, um lado que talvez nem sempre vemos. “Essa experiência trouxe muitas reflexões e aprendizados. Quando uma pandemia acontece, ela não afeta apenas nosso exercício profissional, ela nos afeta enquanto sujeitos”. “Eu estou buscando alternativas constantemente, para entender o momento”, completou Cândida.

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Falta de receptividade dos alunos

Em relação à profissão em si, a professora confessou que tem passado por dificuldades em relação ao modo de ensino virtual. “É muito difícil pra gente, que é professor, não estar na sala de aula presencial”. Segundo ela, a pior parte é não poder partilhar do contato com os alunos, “você estar com uma câmera ligada, ser gravado constantemente e não ter uma receptividade…”

“O que significa não abrir a câmera? Significa você não ter uma correspondência daquilo que você está tentando desenvolver. Um simples olhar, uma cara de dúvida, é elemento o suficiente para retomarmos o raciocínio, explicar de novo. Esse congelamento da leitura do corpo, que nutre tanto a sala de aula, deixa um terreno muito árido para gente atuar.”

Exausta emocionalmente, a doutora falou um pouco sobre a sensação de não ser escutada pelos alunos, de fazer ponderações e não ser atendida. “É muito triste. A gente está sofrendo muito e tem que disfarçar esse sofrimento quase sempre, para não aparecer para os alunos”, contou a profissional. Ela também refletiu bastante sobre seu papel no momento atual e concluiu que deve estimular os estudantes a fazerem o melhor possível.

Como lidar com a situação?

Com uma rotina exaustiva de se reinventar constantemente e a falta de contato com a maioria dos alunos, a professora conta que é obrigada a escolher entre duas saídas, ignorar a situação ou tentar entendê-la. “Fingir que não tá acontecendo, que tem um monte de gente rindo e continuar, e não ser afetado; ou entender o que tá acontecendo e tentar repensar e rever o que, nesse contexto, pode te salvar”.

Além disso, Cândida não pôde deixar de lado a importância do afeto no momento pelo qual estamos passando. Segundo ela, o único jeito de sairmos dessa situação dolorosa e enfrentarmos o que está acontecendo é com o afeto, “a gente precisa entender juntos que há uma necessidade desse afeto, porque todos estamos com medo, inseguros e no mesmo barco, e para conseguirmos nos salvar, nós precisamos dar as mãos.”

A incerteza sobre nosso destino em relação à pandemia é muito grande, o que reforça a necessidade pelo afeto. Mas a insegurança também mudou durante esse ano de adaptação, segundo a professora, que enxerga a sala de aula como um local de partilha, mesmo que seja online. “No primeiro semestre, a gente ficava o tempo inteiro achando que ia voltar. Então a gente trabalhava de um modo transitório” Essa sensação mudou no segundo semestre de 2020 e Cândida contou que chegou mais preparada para o momento, mas que, mesmo assim, estava “machucada por não poder contar com toda essa leitura corporal.”

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Os alunos estão aprendendo?

É aí que entra a questão do conhecimento. Esse é um assunto que tem sido muito discutido e problematizado entre profissionais e até mesmo a população em geral: até que ponto o ensino virtual poderá gerar conhecimento? Na perspectiva da profissional, “a gestão do conhecimento é a gestão da reflexão” e os professores têm feito o máximo possível para propor essas análises necessárias para que o aprendizado aconteça, mas que isso não pode ser comparado com o ensino de antes. “Essa geração vai ter uma formação diferente do que as outras, mas a geração inteira vai ter a mesma formação. Os alunos estarão mais maduros, muito provavelmente, mais cedo”, conta ela.

Um fato interessante trazido por Cândida é que na internet todos são atores. Ou seja, fazer comentários e dividir opiniões nunca foi tão fácil como hoje. “Todo mundo age na internet, então a reprodução da sala de aula no ambiente online é a gente achar formas dos alunos serem atores, eles não podem ser passivos”, disse a professora, que também destacou que seu papel e desafio é criar um espaço onde os alunos se sintam confortáveis para poderem agir.

O que aprender com esse momento?

A professora contou que a experiência inédita de dar aulas virtualmente tem feito com que ela pense cada vez mais em como lidar com tudo isso, e que isso irá prepará-la para outros desafios. “Eu revi todos os meus formatos de aula, revi conteúdos, tutoriais, atividades. Eu revi tudo”, conta ela.

Em troca dos esforços feitos por profissionais da educação, que estão aprendendo a dar aulas nesse ambiente, Cândida diz que acha essencial que os alunos também se reinventem, mesmo que isso seja difícil, e apontou a importância da “disponibilidade dos alunos de aprenderem a ser alunos nesse ambiente.”

Por fim, a professora propôs um questionamento, tanto para professores, quanto para alunos e qualquer outra pessoa que está procurando ficar bem durante esse momento de aflição, “dentro dessa situação, como eu posso ser melhor?”

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