Preço dos alimentos sobe pelo 9º mês seguido; entenda porque isso ainda acontece

A economia do Brasil é diretamente atingida por diversos fatores como o dólar, o que afeta o preço dos alimentos também

Por: Aline Bueno Silvestre | 05 abril - 19:13

A alta no preço dos alimentos tem afetado a economia no Brasil. O índice da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) das Nações Unidas apontou, em março, a alta pelo nono mês consecutivo.

O preço do açúcar e do óleo vegetal foram um dos mais expressivos. Em março, o açúcar registrou mais 6,4% em comparação mensal, pelas quedas de produção e alta demanda vinda da China. O óleo subiu 6,2%, o maior valor desde abril de 2012. A principal causa foi preocupação com os estoques de países exportadores.

Preço dos alimentos sobe pelo nono mês seguido

Foto: Reprodução/Pixabay

Desde o início da pandemia, o valor dos alimentos no geral aumentaram 15% no acumulado, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O percentual é quase o triplo da inflação geral, que ficou em 5,20%.

No dia 25 de março, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, afirmou que há uma tendência de manutenção dos preços de commodities agrícolas, como milho e soja.

Além disso, ela ressaltou que o governo se preocupa especialmente com a alta desses preços, já que eles impactam diretamente os valores das carnes, ovos e leite. O alto valor no mercado do exterior afeta o Brasil, aumentando o valor nos supermercados.

Para Frauzo Ruiz Sanches, engenheiro agrônomo, vice prefeito de Ibitinga, interior de São Paulo, a pandemia também influenciou em questões negativas da produção no Brasil.

“A alta de preços reflete a falta destes produtos tanto no mercado interno como externo. A pandemia em diversos países afetou negativamente a produção devido a limitação de mão de obra, e alguns insumos, por isso reflexo na falta e aumento da demanda mundial com reflexos nos preços.”, afirma.

O valor reflete no dia a dia da população

Vilma Martins de Oliveira é moradora do bairro União de Vila Nova, em São Paulo. Ela participa do projeto Mulheres do GAU, um coletivo que desenvolve a agricultura e culinária orgânica, ajudando outras mulheres e famílias da região.

Para Vilma, a alta dos preços dos alimentos afetou não só o projeto, como também toda a população. “Fomos atingidos porque a gente mora numa comunidade carente, né? E nem todo dia a gente tem dinheiro pra ir no atacadista e fazer uma compra de mês (…) Se vai comprar o leite aqui, R$5, R$5,50, R$6. (…) Essa alta dos preços prejudicou todo mundo e a montagem das coisas [cestas para famílias] também.”

Segundo Vilma, a Mulheres do GAU sofreu uma queda de 70% das vendas dos produtos orgânicos. No momento, a horta e a cozinha não estão produzindo. Antes da pandemia, elas iam começar a entregar por delivery. “Nesse momento, nós estamos sem venda por causa da produção mesmo. Quando tinha produção, as 10 mulheres trabalhando em ritmo normal, a gente só vendia 30% da produção.” Com o restante dos produtos, elas produziam eventos, que era o que gerava mais renda para o grupo.

O papel do dólar no preço dos alimentos

O dólar impacta diretamente nos preços que vemos nos supermercados. Isso porque o real perdeu 22% do seu valor. Sendo assim, o dólar sobe e a moeda brasileira fica desvalorizada.

Sendo a maioria dos preços de custo de produção dos alimentos vinculados com o dólar, o produtor precisa pagar mais caro e, assim, os valores também sobem para a população. Com o real barato e desvalorizado, os produtos brasileiros indiretamente ficam mais baratos para o mercado externo. 

Para o engenheiro agrônomo Frauzo, do ponto de vista do consumidor, os preços devem se manter altos pela demanda do mercado internacional. Para os produtores, a expectativa é que a exportação de produtos como milho, soja e açúcar traga resultados positivos através da demanda.

E foi o que aconteceu com um alimento essencial para a alimentação de muitos brasileiros: o arroz. 35 países aumentaram as importações do Brasil e outros 25 começaram a comprar daqui. O preço do produto aumentou 69% nos últimos 12 meses, de acordo com o IBGE.

O aumento do preço da carne

A carne foi outro alimento que teve alta expressiva durante a pandemia no Brasil. O valor subiu 18% em 2020 e alguns dos problemas evidenciados são as alterações climáticas e aumento dos custos na linha de produção.

Com algumas secas na temperatura climática durando mais do que o previsto, a produção do pasto que alimenta o boi não é o suficiente para que ele tenha todos os nutrientes. Sendo assim, o produtor precisa investir em suplementos. No final, o preço sobe para o consumidor. 

A carne suína também sofreu alterações, mas nesse caso foi devido ao aumento do preço da ração.

Segundo a nutricionista Jéssica Oliveira, que possui pós-graduação em Nutrição, Metabolismo e Fisiologia do Exercício Físico, algumas dicas são fundamentais para ajudar a ter os nutrientes com a substituição destes alimentos.

“Para substituir os cortes bovinos que foram os que mais sofreram inflação, temos como opções cortes de aves, carne suína magra, ovos e vegetais ricos em proteínas que também são benéficos e podem contribuir. No caso do arroz, podemos utilizar todas as variedades de batata, mandioca, mandioquinha, milho e macarrão.”, disse.

Outra dica dada por Jéssica é a compra em menores quantidades. “Uma dica neste momento é: Compre os alimentos em menores quantidades! Evite desperdícios. Evite fazer compras de mês, pois assim você consegue aproveitar as promoções que surgem, então é bom sempre pesquisar os preços, hoje em dia com um celular você já consegue verificar as promoções de todos os mercados sem sair de casa. Inclusive pelos aplicativos.”

Ela fala também sobre observar o período de safra de cada alimento, que também deixa os produtos mais baratos.

Covas anuncia reforço em programas de alimentação

A saúde da população

O aumento nos preços dos alimentos não afeta só o bolso do consumidor final, como também sua saúde nutricional e psicológica.

De acordo com a nutricionista Maíra Lopes, pós graduada em Psicologia da Alimentação e Fitoterapia, isso pode trazer problemas para a saúde. “Com a alta do preço dos alimentos, base da alimentação saudável, as pessoas acabam recorrendo a alimentos industrializados processados e ultraprocessados que são mais baratos, porém muito maléficos à saúde”. 

Além disso, ela ressalta a interferência até mesmo no metabolismo e na imunidade, que deveriam ser preocupações essenciais na pandemia. “Esta piora da qualidade da alimentação interfere muito no metabolismo, agravando quadros de doenças crônicas como diabetes, hipertensão e baixando muito a imunidade que, em meio a uma pandemia, precisa ser prioridade.”, afirma.

Ela argumenta também que os problemas vão além da saúde física, e podem atingir diretamente a mentalidade do consumidor. 

“A alimentação sem qualidade baseada em alimentos industrializados ricos em açúcares, farinha branca e gordura trans agrava muito o estado emocional, temos uma maior produção de cortisol que é o hormônio do estresse e redução de substâncias como endorfinas e serotonina que nos traz bem estar, relaxamento e qualidade de sono. Todo este processo resulta em síndrome da ansiedade, depressão, insônia e estresse. Temos que considerar que a alimentação equilibrada baseada em comida de verdade nos traz saúde física e mental.”, disse Maíra.

Por isso, investir em alimentação de qualidade é essencial. Porém, a alta dos preços continua afetando os brasileiros. 

*Com informações do Portal UOL, G1 e Folha de SP.

LEIA MAIS:

Preço de cesta de Páscoa sobe quase 30%

Delivery de comida cresce 45% em São Paulo com agravamento da Covid-19

Confira os últimos acontecimentos no Estado de São Paulo:

Deixe seu comentário

BOMBOU!

Recomendadas para você