Entenda o movimento “Black Lives Matter” e sua importância no Brasil e no mundo

O racismo estrutural está impregnado em nossa sociedade e a única maneira de lutarmos contra isso é se formos antirracistas

Por: Maria de Toledo Leite | 20 abril - 16:49

Recentemente, o racismo estrutural, impregnado em grande parte do mundo, tem vindo à tona cada vez mais, seja porque a população está mais consciente ou por causa das redes sociais, que permitem uma conversa maior entre pessoas de diversos lugares. No entanto, nem sempre fica evidente o quão forte e presente em nossos dias ele é.

Ano passado, uma onda de protestos reivindicando justiça racial eclodiu nos Estados Unidos, e a partir disso, os dados começaram a ser analisados de forma dura no país, assim como no Brasil. Nos EUA, a população negra está na última posição em gráficos que expressam taxas de pessoas empregadas, de renda média e de valor de salário recebido, conceitos simples mas que representam como o racismo é sistemático.

No Brasil, acontece a mesma coisa em gráficos de igualdade salarial e de desemprego, sendo que grande parte da população desempregada é negra. Além disso, no Brasil, de acordo com o Atlas da Violência 2017, a população negra também corresponde a maioria dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios.

O que é o Black Lives Matter?

O Black Lives Matter (BLM), “Vidas Negras Importam”, em português,  é uma organização criada em 2013 por três ativistas norte-americanas que já lutavam pela igualdade racial antes do movimento. Hoje em dia, O BLM é uma fundação global que tem como objetivo acabar com a supremacia branca e construir poder local para romper com a violência policial e do Estado causada nas comunidades negras.

Por que o movimento cresceu tanto no último ano?

No entanto, se existe há anos, por que o movimento cresceu tanto nos últimos tempos? Em maio de 2020, George Floyd foi assassinado por um policial em Minnesota, e a cena foi gravada e publicada em redes sociais, levantando uma forte onda de protestos e inquietações em relação à violência causada por oficiais contra pessoas negras. No vídeo, é possível ver o policial ajoelhado no pescoço de Floyd, que implora por ar e diz que não consegue respirar, repetidamente. O assassino foi declarado culpado nesta terça-feira (20).

Com essa tragédia, milhares de pessoas foram às ruas, em diversos países diferentes, para lutar contra a supremacia policial e começaram a usar a #BlackLivesMatter, tanto nos protestos quanto nas redes sociais. O termo passou a ser usado por famosos e não famosos como uma forma de apoio ao movimento e para cobrar as autoridades sobre esse caso e tantos outros. A morte de George Floyd trouxe à tona tantas outras vidas negras tiradas pelo racismo policial.

Casos de violência policial nos EUA e no Brasil

Breonna Taylor é um dos nomes que recebeu atenção em meio ao caos promovido pelo assassinato de Floyd. Breonna era uma profissional da saúde negra, que foi morta por policiais em março de 2020. O crime aconteceu enquanto os oficiais revistavam seu apartamento. Justiça ainda não foi encontrada para Breonna Taylor, nenhum dos dois policiais envolvidos no assassinato foi sentenciado pelo crime.

No dia 11 de abril, o jovem Daunte Wright foi morto durante uma abordagem em Minnesota, a cerca de 15 km do local onde George Floyd foi assassinado. Segundo a policial Kim Potter, Wright foi parado em uma blitz e os oficiais verificaram que existia um mandado de prisão contra o jovem. Enquanto estava sendo algemado, o homem entrou no carro e a policial atirou. A oficial afirma que foi um “disparo acidental” e que sua intenção era usar uma arma de choque, mas que se confundiu. Potter foi presa por homicídio, mas pagou fiança e não está mais detida.

O movimento começou nos Estados Unidos, mas teve um grande impacto em outros países, inclusive no Brasil, onde também foi criado para lutar contra a violência policial. Dados da CPI do Senado Federal apontam que um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos no país. São 63 por dia.

Um caso que gerou grande repercussão aqui no Brasil, foi o da menina Ágatha Félix, de 8 anos. A criança foi morta a tiros em setembro de 2019, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A investigação foi finalizada e o policial que cometeu o crime foi afastado.

Em maio do ano passado, João Pedro Matos, de 14 anos, também foi morto com um tiro nas costas em São Gonçalves. O caso está prestes a completar um ano e a investigação do assassinato ainda está parada, sem nenhuma conclusão e deixando os policiais saírem impunes da situação.

Outro caso que ganhou muita mídia no país, por ter tido vídeos divulgados em redes sociais, foi o de João Alberto, homem negro que foi assassinado em meio a uma loja da rede de hipermercados Carrefour, no ano passado, quando dois seguranças brancos espancaram-no até a morte. O crime ocorreu na véspera do Dia da Consciência Negra.

Qual a mobilização da população diante os casos?

Pode-se dizer que o que gera mais inquietação, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, é a impunidade. No ano passado, as ruas dos Estados Unidos foram sede de protestos e manifestações que prezavam pela vida negra. Os movimentos reuniram pessoas famosas e comuns, que se juntaram com o propósito de reivindicar os direitos iguais de negros, após o trágico assassinato de George Floyd. Muitas das manifestações acabavam em violência, mas a grande maioria delas era pacífica.

A sociedade brasileira também se viu incomodada após a onda de violência norte-americana, mas a ação no país foi majoritariamente por meio de redes sociais. No dia 2 de maio de 2020, o Instagram foi tomado por quadrados pretos acompanhados pela #blackouttuesday, com a intenção de amplificar a voz da comunidade negra por meio do silêncio. Ações como essa tornaram-se mais comuns ao longo dos meses, e pessoas passaram a se educar mais sobre o racismo.

No entanto, é essencial dizer que, publicar uma foto preta e depois fazer comentários racistas “em off”, não é lutar pelas vidas negras que importam, é apenas ser racista. O importante é saber diferenciar o momento de falar e o de parar e escutar, saber o seu lugar de fala, em todas as situações.

O que é racismo estrutural

Racismo estrutural é o termo usado para reforçar que o racismo não é uma questão pontual ou comportamental, ele se infiltra na vida social e aprofundam as crises causadas por ele. Há sociedades estruturadas com base na discriminação que privilegia algumas raças em prejuízo a outras. Por exemplo: no Brasil, essa diferenciação acaba por favorecer pessoas brancas, deixando de lado negros e indígenas.

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