Saiba tudo sobre a Sputnik

Entenda suas controvérsias; a eficácia; onde foi permitida

Por: Sophia Bernardes | 17 abril - 08:01

Imunizante russo contra a Covid-19 foi aprovado em diversos países e agora passa pela análise da Agência Europeia de Medicamentos. Mas a vacina é controversa, de acordo com o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, trata-se da “melhor vacina do mundo”.

Já na mídia nacional, ela é celebrada como um sucesso de exportação. Com as notícias sobre o imunizante circulando muitos se questionam se, além de toda a propaganda do Kremlin, essa vacina é um artifício eficaz e seguro contra o Covid.

Foto: Agência Brasil

Para responder a essa pergunta, a DW fez uma checagem de fatos do estado atual de conhecimento sobre o imunizante russo.

Qual tipo de vacina é a Sputnik V?

A Sputnik V foi desenvolvida pelo Instituto Gamaleja de Epidemiologia e Microbiologia de Moscou e financiada pelo Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF).

É uma vacina vetorial, semelhante às vacinas da AstraZeneca e da Janssen, subsidiária da Johnson & Johnson. As vacinas através do vetor viral são mais simples de manejar do que as vacinas de RNA, dado que podem ser armazenadas em temperaturas de geladeira comum.

Com uma vacina vetorial, os vírus inofensivos, como vírus inativos de resfriado, transferem para o corpo as instruções de montagem para proteínas spike, com as quais o patógeno Sars-Cov-2 se fixa em células humanas. O corpo da pessoa imunizada reconhece o material genético inserido como um corpo estranho e forma anticorpos e células T específicas, ambos são importantes para o sistema imunológico.

O que torna a Sputnik V exclusiva, é o fato de ela usar dois adenovírus humanos diferentes para a primeira e a segunda doses: na primeira é utilizado o rAd26 – também utilizado na Janssen – e na segunda o adenovírus rAd5. Por meio desta combinação, o objetivo é evitar que uma imunidade já existente contra o primeiro vírus vetorial seja neutralizada pela nova imunização, o que anularia o efeito de reforço desejado com a segunda dose.

Qual sua eficácia?

A princípio, o uso de dois vetores diferentes é plausível, porque promete maior eficácia. A eficácia das outras vacinas vetoriais – AstraZeneca (76%) e Janssen (85,4%) –, que utilizam apenas um único vetor, está consideravelmente abaixo dos valores das duas vacinas de mRNA da Biontech/Pfizer (95%) e Moderna (94,1%).

No entanto existem pontos relevantes a serem considerados, a vacina foi aprovada na Rússia em agosto de 2020, antes mesmo da checagem padrão de segurança. Mesmo oito meses após uma aprovação feita às pressas, ainda não há dados confiáveis sobre a vacina, visto que Rússia ainda não divulgou os dados primários cruciais a nenhuma autoridade independente de testes de medicamentos.

Em setembro de 2020, a revista britânica The Lancet publicou os resultados dos estudos realizados nas fases iniciais. Contudo, somente 38 voluntários participaram de cada uma das duas pesquisas sobre segurança, tolerabilidade e imunogenicidade. Segundo os levantamentos, a vacina provocou uma forte resposta imunológica e nenhum dos participantes teve efeitos colaterais graves.

Foram observados pelos especialistas pontos curiosos, como o fato de os indivíduos que fizeram parte dos testes, que receberam formas muito variadas da vacina, terem de acordo com o estudo, exatamente o mesmo nível de anticorpos no sangue em dias diferentes. Para especialistas internacionais, não pode ser coincidência que os participantes tivessem o mesmo valor de células T que combatem a Covid. Em nota, quarenta pesquisadores da Europa, Estados Unidos, Canadá e Rússia alertaram sobre o imunizante para uma possível manipulação de dados.

Logo no início de fevereiro deste ano, cientistas russos publicaram novamente no The Lancet os resultados de uma análise provisória do estudo de fase 3 em andamento. O relatório aponta que mais de 18 mil voluntários foram vacinados, cada um, com duas doses da vacina em um intervalo de três semanas. Segundo o estudo, a eficácia foi de 91,6% – e nenhum participante teve efeitos colaterais graves.

Esta publicação também recebeu diversas críticas posto que uma avaliação independente seria novamente impossível sem a publicação dos dados iniciais.

De acordo com um novo estudo realizado recentemente, dia 3 de abril, a Sputnik V é considerada eficaz contra a variante britânica do vírus (B.1.1.7) e a mutação sul-africana (B.1.351), mas isso não foi verificado por um processo padrão de revisão por pares.

Possíveis riscos

Houve relatos de 4 supostos óbitos e 6 complicações de saúde graves após a aplicação do imunizante Sputnik, o que levou mais uma vez sua segurança ser questionada, no entanto a autoridade de controle russa Rossdravnadsor a negou qualquer conexão direta com a vacina.

Além das reações típicas à vacinação, como sintomas semelhantes aos da gripe, irritação da pele no local da injeção, dor de cabeça e exaustão, nenhum efeito colateral grave foi registrado em relação à vacina.

Onde a Sputnik foi aprovada?

De acordo com o levantamento realizado pela DW, o imunizante russo já foi aprovado em 60 países, bem como nos territórios palestinos e na República de Srpska (na Bósnia e Herzegovina), isso inclui países de todo o mundo, como Índia, México, Irã, Gana, Sri Lanka e Sérvia.

Além deles, também foi permitido o uso da vacina na Hungria e Eslováquia com aprovação nacional de emergência, embora o imunizante ainda não tenha sido aprovado pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA).

Na Hungria, a vacina já está sendo inclusive aplicada, enquanto na Eslováquia, 200 mil doses da Sputnik distribuídas pela Rússia não foram aprovadas pelas autoridades

É complicado saber com precisão em quais países a Sputnik V não só foi aprovada, mas também já está em uso. Entre eles estão Argentina, Sérvia e San Marino, e a própria Rússia – cerca de 8,8 milhões de pessoas haviam recebido pelo menos uma dose de vacina até 12 de abril o que corresponde a cerca de 6% da população – relativamente pouco numa comparação internacional.

Embora ainda não tenha sido aprovada, em outros países a Sputnik V já está sendo testada e pré-encomendada, como no Brasil, por exemplo, onde vários estados e mais o Ministério da Saúde encomendaram juntos cerca de 76 milhões de doses.

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