‘Kit Covid’: conheça os medicamentos que fazem parte do “tratamento precoce” da doença

Remédios usados no combate de vermes, infecções sexualmente transmissíveis e malária estão na lista

Por: Caroline Ripani | 29 março - 15:30

Com o avanço cada vez maior da pandemia no Brasil, e a campanha de vacinação andando a passos curtos, muitos se veem sujeitos a procurar pelas mais diversas formas de prevenção e combate ao novo coronavírus.

Um exemplo é o uso de medicamentos que, sem qualquer eficácia científica comprovada, vem sendo prescritos por alguns médicos com a intenção de controlar sintomas, prevenir infecções e atuar contra o desenvolvimento da doença. 

O chamado ‘kit covid’ nada mais é do que uma combinação desses medicamentos receitados para o tratamento precoce do vírus. Fazem parte do kit, fármacos como hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, entre outros.

A seguir, conheça mais sobre a finalidade e os efeitos colaterais desses remédios.

Hidroxicloroquina

Caixa do medicamento hidroxicloroquina

Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

Tanto a cloroquina quanto seu derivado, a hidroxicloroquina, são medicamentos utilizados na prevenção e tratamento de doenças como malária, lúpus, e artrite reumatóide.

Seu papel no combate ao coronavírus, seria o de controlar a infecção, já que impediria a replicação do vírus no organismo.

No entanto, a primeira pesquisa comprovando a eficácia do remédio, realizada em março de 2020 pelo médico francês Didier Raoult e sua equipe, foi logo desmentida pela comunidade científica. O estudo continha vários erros, e portanto não era válido.

Mesmo sem nenhuma prova concreta sobre o potencial da hidroxicloroquina no combate ao coronavírus, líderes políticos como o então presidente norte-americano Donald Trump, defenderam o uso do medicamento. Segundo Trump, a hidroxicloroquina “deveria ser colocada em uso imediatamente, pois pessoas estão morrendo”.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro também defendeu o medicamento, chegando até a levá-lo em diversas transmissões ao vivo.

Vários estudos sobre o tema foram publicados nos últimos meses, e além da hidroxicloroquina não mostrar o efeito desejado contra a covid-19, profissionais da saúde ainda alertam para reações adversas. Entre elas estão lesão no fígado, convulsões, diarréia, distúrbios do sistema nervoso e prolongamento do intervalo QT, que ocorre quando o coração demora mais que o normal para recarregar entre os batimentos.

Ivermectina

Ivermectina

Foto: Reprodução/Shutterstock

Outro medicamento polêmico no combate ao coronavírus é a ivermectina. O uso do remédio é comumente indicado para tratar infestações de vermes, parasitas e ácaros. 

Durante o segundo semestre de 2020, um estudo experimental realizado em células teria classificado a ivermectina como eficaz contra o vírus. Entretanto, a dose utilizada na pesquisa ultrapassou dez vezes o limite considerado seguro aos humanos, podendo, se consumida, causar intoxicação e problemas no fígado.

Ainda há incertezas sobre o real potencial da ivermectina contra a covid-19, diferentemente do que se pensa sobre a hidroxicloroquina, cujos estudos já são conclusivos.

Portanto, dada a falta de resultados convincentes sobre o medicamento, a comunidade científica não recomenda o uso do mesmo no tratamento da covid.

Azitromicina

Mão segurando caixa do medicamento azitromicina

Foto: Reprodução/Leonardo de França

A azitromicina é um antibiótico frequentemente utilizado no tratamento de infecções respiratórias ou sexualmente transmissíveis.

Em 2020, o remédio ganhou fama ao ser associado ao combate da covid-19, sendo incluído no ‘kit covid’ para uso combinado com a hidroxicloroquina. Mesmo assim, não demorou muito para que fosse provado que o antibiótico não interfere no curso do vírus.

Um estudo publicado por pesquisadores brasileiros em setembro de 2020, indicou que a azitromicina não faz diferença no estado de pacientes hospitalizados.

Para chegar a tal conclusão, pacientes foram separados de forma aleatória em dois grupos, onde 214 receberam o medicamento em conjunto com o tratamento padrão, e 183 receberam apenas o tratamento. Ao final do estudo, não houve diferença entre a taxa de mortalidade, nem ao tempo de internação.

Mesmo a azitromicina sendo descartada do combate ao vírus da covid, ela segue sendo parte do tratamento da doença. Devido ao seu potencial antibiótico, o fármaco age contra possíveis infecções bacterianas oportunistas, impedindo que o paciente desenvolva por exemplo, uma pneumonia.

Nitazoxanida

Caixa do medicamento nitazoxanida

Foto: Reprodução/Caio Rocha/Folhapress

A nitazoxanida, vendida com o nome comercial Annita, é um é um vermífugo que atua no combate de parasitas. 

Apesar do medicamento já ter demonstrado eficácia antiviral in vitro, inclusive contra o SARS-CoV-2 – nome oficial do novo coronavírus, sua ação in vivo, isto é, dentro de um organismo ou tecido vivo, não foi comprovada.

Em outubro de 2020, o presidente Jair Bolsonaro, juntamente com o ministro da Ciência, Marcos Pontes, anunciaram em cerimônia promovida pelo governo federal, um estudo acerca da utilidade do remédio no tratamento precoce da covid.

O estudo, realizado por pesquisadores brasileiros, durou quatro meses e contou com a participação de cerca de 1,5 mil voluntários com sintomas iniciais da doença. Os participantes foram divididos em dois grupos, onde um grupo foi medicado com nitazoxanida, e outro tomou placebo.

Ao final da pesquisa, constatou-se que não houve diferença significativa entre os pacientes em desfechos clínicos, como resolução completa dos sintomas ao fim do tratamento, ou diminuição na necessidade de internações.

Hoje em dia, a nitazoxanida não está mais incluída no protocolo referente ao tratamento precoce do novo coronavírus.

Resultado otimista, mas que exige cuidado

Medicamento dexametasona

Foto: Reprodução/Yves Herman/Reuters

Diferentemente dos resultados obtidos com a hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina e nitazoxanida, o corticóide conhecido como dexametasona teve sua eficácia comprovada no tratamento da covid-19. No entanto, seu uso é recomendado apenas em casos graves da doença. 

Segundo estudo realizado pela Universidade de Oxford em 2020, o uso da dexametasona – indicada no tratamento de doenças como reumatismo, alergias graves e doenças de pele – reduziu em 30% as mortes de pacientes internados já em estado grave.

O remédio atua amenizando a hipoxia, deficiência de oxigênio que pode levar pacientes graves à morte, e também diminui a inflamação que se instala na fase mais severa da covid.

Por outro lado, o uso prolongado da dexametasona, assim como de qualquer corticóide, pode causar efeitos colaterais como gastrite, hipertensão, glaucoma e diabetes.

Hepatite medicamentosa

Segundo reportagem publicada no jornal Estadão, o uso do kit covid vem sendo apontado como responsável pela entrada de cinco pacientes à fila de transplante de fígado em São Paulo. Outras três pessoas morreram de hepatite medicamentosa relacionada aos remédios receitados no “tratamento precoce” da doença no estado.

Quatro pacientes deram entrada no Hospital das Clínicas da USP, e o outro no HC da Unicamp. Todos haviam feito uso de ivermectina após serem diagnosticados com o novo coronavírus.

De acordo com Luiz Carneiro D’Albuquerque, chefe de transplantes de órgãos abdominais do HC-USP e professor da universidade, os pacientes chegaram “com pele amarelada e com histórico de uso de ivermectina e antibióticos”.

“Quando fazemos os exames no fígado, vemos lesões compatíveis com hepatite medicamentosa. Vemos que esses remédios destruíram os dutos biliares, que é por onde a bile passa para ser eliminada no intestino”, acrescentou D’Albuquerque.

Sintomas como hemorragia, insuficiência renal e arritmias também foram observados pelos profissionais de saúde nos pacientes que fizeram uso do kit. 

Dois, dos quatro pacientes que foram atendidos pelo HC da USP, não resistiram e morreram antes de realizarem o transplante. O terceiro óbito foi registrado em uma unidade particular em Porto Alegre.

Segundo afirmou Ilka Boin, professora da Unidade de Transplantes Hepáticos do Hospital das Clínicas da Unicamp, “a covid pode atacar o órgão, mas de uma forma diferente. Esse padrão que encontramos é de lesão por medicamentos”.

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