Além da Covid, Brasil teve 55 mil mortes por outras doenças acima do previsto

As estatísticas indicam que, além das perdas pela Covid, a crise sanitária causou mortes de quem poderia sobreviver em outra situação

Por: Sophia Bernardes | 20 abril - 14:10

O Brasil registrou 275.587 óbitos em 2020, a mais do previsto para o ano, desse total 220.469 foram decorrentes da Covid-19, mas outros 55.117 morreram por outras doenças. O levantamento realizado com base em números do estudo Excesso de Óbitos no Brasil, da organização em saúde Vital Strategies, no painel do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde).

As estatísticas indicam que, além das perdas pela Covid, a crise sanitária causou mortes de quem poderia sobreviver em outra situação.

Foto: Agência Brasil

Com o isolamento social determinado para reduzir o contágio da doença, houve dificuldade de atender pacientes crônicos, realizar exames e fazer diagnósticos precoces de doenças graves. A extensão desse problema no sistema de saúde brasileiro  preocupa a população e os médicos e especialistas em outras enfermidades, que já trabalham com projeções de até 50 mil casos de câncer para este ano por causa do abandono de tratamento ou atraso na identificação da enfermidade.

A coordenadora do estudo e professora da UFMG, Fatima Marinho afirmou, “A gente atribui isso, em parte, ao cancelamento ou adiamento dos procedimentos médicos que deveriam ter sido feitos, como exames”. Quando os pacientes chegam ao hospital, já estão em situação mais grave”, completa. De acordo com a coordenadora, as pessoas têm receio de ir ao hospital com medo de infectarem com a Covid.

Fatima explica que, o pico até dezembro ocorreu na semana epidemiológica 20, virada de maio para junho, com 33.569 mortes, era esperado cerca de 23.727 com base nos outros anos. Houve um aumento de 46% das mortes esperadas naquela semana. Ao longo do ano, a linha da curva das mortes esteve acima da curva da expectativa com base nos anos anteriores.

Casos de câncer

Para os oncologistas a preocupação está destinada aos 50 mil novos casos de câncer que deixaram de ser detectados no ano passado por causa da escassez de diagnósticos no período. De acordo com a diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e oncologista do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, Daniela Dornelles Rosa, houve forte queda nas consultas, só no centro de oncologia do hospital, houve desistência de 720 pacientes e mais 264 do centro de mama. “Se formos computar com fevereiro e março, são 3.436 desistências de consulta em três meses”, argumenta a Daniela.

“O quanto isso vai acabar resultando em mais mortes, a gente ainda não sabe mensurar”, afirma a oncologista. “Mas quando a gente pensa em outras doenças, como as cardiovasculares, existem publicações mostrando que há, sim, um maior número de casos de pacientes que podem, inclusive, acabar morrendo em casa”, afirma a diretora.

Conforme projeção nacional de novos casos de câncer apontava, para a ocorrência de 625 mil diagnósticos anuais no triênio 2020-2022. Para Daniela, é fundamental que nesse momento as pessoas procurem o médico para identificar a doença no estágio que ainda possibilita a cura. “Nossa recomendação é que não se cancelem exames”, afirma a oncologista.

O presidente da SBCO e cirurgião oncológico, Alexandre Ferreira de Olivieira, tem certeza sobre impacto da Covid nas demais doenças, ele cita um levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Radioterapia que apresenta uma redução de 46% nas radioterapias para mama no Brasil. “Houve também queda de 47% na detecção de novos casos no Hospital AC Camargo, de São Paulo”, afirma.

Alexandre aponta como principal problema a falta de realização dos exames necessários para detectar a doença. “O diagnóstico precoce é fundamental”, afirma.

“No Reino Unido, uma prospecção aponta que haverá 18 mil casos a mais de mortes por câncer neste ano devido à falta de diagnóstico precoce”, diz o médico. “O nosso medo é que as doenças crônicas matem mais do que a Covid”, alerta.

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