A insegurança alimentar no Brasil durante a pandemia

Inquérito sobre Segurança Alimentar apontou que, no ano passado, 19 milhões de brasileiros passaram fome

Por: Murilo Amaral Feijó | 20 abril - 17:43

No início de abril deste ano, foi divulgado o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar, conduzido pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional). O levantamento apontou que 19 milhões de brasileiros passaram fome, em 2020, durante a pandemia de covid-19.

A pesquisa também apontou que 55% da população, cerca de 120 milhões de pessoas, vivem com algum tipo de insegurança alimentar, seja ela leve, moderada ou grave.

Alimentos em prateleira de supermercado

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Guilherme Prado, mestre em Ciências Sociais pela UFABC e coordenador da Rede Livres, explica que a segurança alimentar é “a possibilidade das pessoas terem acesso às suas nutrições básicas, seus alimentos mais básicos para poder ter saúde e para poder viver”. Ele afirma que essa possibilidade pode ser garantida tanto por meio de transferências governamentais quanto através da renda própria.

Esse índice, segundo Guilherme, chegou a ter uma melhora com a criação de políticas públicas, “como o Bolsa Família e o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos)”, durante o governo do ex-presidente Lula (PT). “Eu não diria que a coisa se resolveu, mas a gente sai, por exemplo, do Mapa da Fome, durante os governos do PT. E depois deles, a gente volta”, afirma.

Segundo Prado, em entrevista à Metropolitana, o Brasil vive uma tendência de aumento da insegurança alimentar: “A tendência a uma maior insegurança na alimentação já aparece ainda no governo da Dilma (PT), principalmente no 2º mandato. Mas depois de 2012, especialmente com a crise que já começava a circular no Brasil, tanto o PAA quanto os estoques reguladores de alimentos da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estavam em queda”.

ATUAL GOVERNO E O AUXÍLIO EMERGENCIAL

A atual gestão de Jair Bolsonaro (sem partido) também contribui para a queda da segurança alimentar da população, na visão de Prado. Ele cita ações como cortes no PAA, o aumento do desemprego, o desmonte da Conab – que acaba com os estoques e que oscila os preços dos alimentos – e a política de paridade de preços internacionais da Petrobras, “porque nossa comida é fortemente impactada por combustível, por petróleo e por gasolina”, segundo Guilherme.

Durante a pandemia de covid-19 que atingiu o mundo, o auxílio emergencial do governo foi uma política que amenizou minimamente a fome no país. Porém, o vácuo causado com o fim da primeira rodada do benefício e a queda do valor na segunda rodada podem causar um impacto na segurança alimentar. Segundo Guilherme, a segunda rodada do auxílio emergencial, que já foi apontada como insuficiente, não completaria totalmente a renda de pessoas mais pobres para que elas possam se alimentar.

Durante a entrevista, Prado ressalta que a questão da insegurança alimentar surge com dois problemas: “o agricultor sem apoio no campo e as pessoas com fome na cidade”. Para ele, a solução sustentável desse problema viria através de um auxílio suficiente para a população e um maior apoio para os pequenos agricultores.

SOLIDARIEDADE

Guilherme destaca também o trabalho da sociedade no combate à fome no país. Ele atua como coordenador da Rede Livres da Baixada Santista, que conecta consumidores conscientes com produtores locais e orgânicos. “São muito importantes as redes de solidariedade, a gente fica muito contente de poder tá ajudando, mas é claro que elas são insuficientes, dado o tamanho da crise que a gente tá”, alerta.

Para ele, a falta de políticas públicas e a crise sanitária do coronavírus demandam muito da população, sendo necessária uma atuação dos governos federais, estaduais e municipais para garantir o isolamento social “com o mínimo de impacto social possível”.

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